Entrevista com locutor do programa “CQC” Antônio Viviani

Fatiou Passou 2 de agosto de 2012 0

Uma curiosidade que sempre persiste em um ouvinte está ligada à associação da voz ao locutor. Não é a toa que do outro lado dor rádio, ficamos imaginando como deve ser o biótipo de quem está falando. Alto (a) ou baixo (a)?   Loiro (a), Moreno (a), Ruivo (a)…Sorriso perfeito como a voz? Olhar tão aveludado quanto a voz? QUEM É O DONO (A) DE TAMANHA SONORIDADE???

A incógnita é maior em relação ao rádio, mas na televisão também existem valiosas vozes que despertam a mesma sensação de curiosidade. E, quando se trata de alguma campanha publicitária ou programa televisivo que ganha destaque nacional,  por conseqüência, a tal voz também leva o “louro” da fama. E é exatamente isso que acontece com o Antônio Viviani.

Sua imagem pode passar despercebido em meio a multidão, mas quando Viviani começa a conversar, fica a interrogação no ar: “Onde já ouvi essa voz?”.  Basta ouvir o programa “CQC” que a pergunta é esclarecida em fração de segundos, principalmente quando entra NO AR o “Top 5”, quadro do programa humorístico que caiu na graça do público e sempre é destaque nas redes sociais… Apresentado por ele, Antônio Viviani.

Bem humorado e sem estrelismo,  esse profissional da voz se dispôs a conversar com a redatora  Fernanda Betini, que enviou essa entrevista exclusiva para o Fatiou Passou.

Fernanda Betini: Você começou a trabalhar em emissora de rádio com 14 anos em Poços de Idade.  E a locução surgiu com essa idade?
Antônio Viviani:  Isso. Na realidade eu estava na 8ª série e recebemos uma proposta do colégio para fazer cursos que tinham no segundo grau. Então podia escolher entre eletrônica, química,  enfermagem,  mecânica…Eu escolhi eletrônica. E aí eu não sabia fazer nada daqueles circuitos eletrônicos, eu não tenho a mínima habilidade manual, mas um dia o professor montou um aparelhinho com o famoso transmissor  e receptor. Eu já tinha sido orador no primário,  sempre fui o que  lia em voz alta na classe,  já  seria o orador da 8ª série…Tinha sido escolhido pela turma pro final daquele ano. Na hora de fazer funcionar o receptor, me escolheram para ser o locutor. Quando fiz aquilo lá, saí da escola,  fui pra casa  e perguntei ao  meu pai se ele conhecia alguém de rádio. Ele disse “Conheço só uns nomes”. Fui  na rádio, bati na porta, perguntei se tinha alguma possibilidade…Eu tinha 14 anos. E o cara falou: ‘Tem uma freirinha que faz [programas] aos sábados e ela está sempre precisando de alguém que leia os textos’.  Fiquei alguns meses fazendo esse programa, eu lia os textos e ela comentava sobre os textos que eu lia. Eram textos religiosos, não exatamente bíblicos, mas eram coisas filosóficas e religiosas. O gerente da rádio me ouviu e me contratou. Dia 10 de dezembro eu comecei oficialmente como locutor na ‘Difusora’ de Poços de Caldas. 

FB: Ali você ficou um ano e depois migrou pra outra emissora?
AV: Eu fiquei alguns meses e depois eu fui na ‘Cultura’. Porque na realidade, eu me desentendi na rádio Difusora. Quando eu fui pra Cultura, não tinha vaga para locutor, aí eu fui como operador de som. Logo depois surgiram programas para fazer aos finais de semana. Aí eu fazia isso…Fazia especiais, uma ‘Parada de Sucessos’ que tinha no domingo de manhã e fiquei nessa rádio durante três anos e em fevereiro de 1978 eu saí de lá e vim embora pra São Paulo.

FB:  Por que essa mudança…Foi por causa da profissão?
AV:  Não, não…Pra continuar os estudos. Eu terminei o segundo grau e tinha que fazer cursinho, entrar na faculdade. Eu queria fazer jornalismo, aí vim pra cá. Cheguei em São Paulo dia 1º março de 78, só que fui na lista telefônica direto e procurei na letra “R”- “Rádio” e dia 15 de março eu estava estreando na rádio ‘Tupi’, fazendo grande jornal. Fiquei alguns meses e depois fui pra Difusora que era a grande rádio jovem da época, junto com a Excelsior. Terminei meu cursinho, entrei na [faculdade] Cásper Líbero. Só que aí um emprego só não dava conta.  Comecei com dois empregos, três…Aquela coisa, né? Acabei trancando a faculdade e nunca terminei o jornalismo.

FB: Na capital paulista você passou por grandes emissoras, AM e FM. Você teve que ter uma  dose extra de dedicação para falar pra públicos diferentes ou acredita que a sua versatilidade é natural, acontece de maneira espontânea?
AV:
  Em princípio, não. Quando eu cheguei, fazia radio jornalismo, que é aquela locução séria,  lida. Quando eu fui pra Difusora, sim. Era uma linguagem mais jovem e nessa linguagem jovem eu fiquei alguns anos. Fui contratado pela Excelsior, Antena 1,  Metropolitana…Depois fui pra rádio popular, aí sim a linguagem era diferente. Eu acho que nunca me adaptei a essa linguagem popular porque eu nunca fui adepto do mundo cão. Por exemplo:  Aquelas cartas que se liam sempre com tragédias…O meu quadro era “A Maior Alegria Da Minha Vida”  e me parece que ninguém gosta muito de falar em alegria. As pessoas preferem os dramas, o choro. Não são as coisas mais alegres que dão mais audiência, ou que chamam mais a atenção dos ouvintes de rádio popular, são as mais dramáticas. Então, eu não me adaptei ao rádio popular, a não ser quando eu fiz um programa na Record que chamava: “Alegria dos Bairros”. Era uma espécie de programa de televisão no rádio.  Íamos com palco, com equipe de externa, dançarinas,  os artistas. Era um show das 15h às 17h nos bairros de São Paulo e nas cidades circunvizinhas, também. Esse programa existia desde a década de 60 , chegou a ser apresentado por Silvio Santos e retornou em 84/85 quando eu estava na Record e eu era o apresentador. Aí sim eu fui pra televisão e assim, consecutivamente.

FB: Quando começou a fazer campanhas publicitárias?
AV:
Desde o primeiro ano que estava em São Paulo. Em 1978, quando cheguei na Difusora,  eu conheci o Sargenal e um dia que estava na rádio, vi o Claudinho Branco chegar pra gravar um comercial que iria veicular só na Difusora. Achei aquilo estranho e perguntei  pro operador: “Mas como assim, ele vem aqui pra gravar um comercial? Tem os locutores aqui”.  Aí ele falou: “Mas ele cobra por isso”. A partir  daquilo eu nunca mais gravei nenhum comercial de graça em qualquer emissora por onde eu passei. Sempre tive o meu cachê e descobri que tinha um mercado publicitário. Conhecendo o João Avelal, ele me indicou um estúdio de som e um estúdio de imagem. Eu fui tanto na Diana, quanto na Ecos. Principalmente na Ecos eu fui muito bem recebido e acabei gravando o meu primeiro comercial de rádio , depois meu primeiro comercial de televisão e assim por diante.

FB: Você começou com campanha nacional?
AV:
Sim. Meu primeiro comercial de rádio foi “Cural de Milho Verde Vigor”.

FB: Quais as áreas da locução que você trabalha atualmente?
AV:
Tudo ligado ao marketing e continuo em televisão. Estou na ESPN Brasil desde a fundação, há 17 anos. Sou um colaborador do canal e sempre fui a voz padrão. Depois surgiu o “CQC” , também escolheram a minha voz pra fazer as vinhetas do programa. No rádio, nunca mais tive nenhuma oportunidade. Não houve nenhum convite que tenha me chamado a atenção.

FB: Você fundou o “Clube Da Voz”,  uma sociedade de vozes seletas que trabalham com campanhas nacionais. Como surgiu a idéia de ter uma ‘agência’ de locutores.
AV:
  Você falou ‘sociedade’ e ‘agência’, na verdade, não é nem uma coisa e nem outra. É uma associação dos locutores que em 1992 foram muito criticados em Cannes porque uma criativa ouviu o comercial brasileiro e falou:  “Puxa, mas locutor brasileiro é tudo igual”. Pô, mas os comerciais que iam pra Cannes, normalmente  eram gravados em inglês e eram gravados por um só determinado locutor. Ela teve razão nesse sentido.  Aí falamos que estava na hora de nos juntarmos para valorizar a nossa profissão. Nos reunimos primeiramente dentro da Aprosom que é a  Associação das Produtoras de Som. Ali ficamos algum tempo até buscarmos a nossa sede própria e fizemos essa associação para os profissionais de voz em publicidade. Então, veja bem…Não é que ela seja seleta. Ela é uma associação que reúne os profissionais que atuam no mercado.  Se você grava comerciais nacionais, tem lá no site como se associar. Nós não lançamos talentos novos no mercado porque não somos uma agência e nem um banco de voz a oferecer serviço de locução no mercado. Não.  Somos uma associação que reúnem os profissionais. A partir do momento que você se enquadra em todos os quesitos aprovados em assembleia geral,  qualquer pessoa pode fazer parte do “Clube da Voz”.

FB: Você já teve sua voz negada por algum cliente?
AV:
Claro que sim! Nossa…Tranquilamente! Não é a voz. É uma coisa subjetiva. Muitas vezes o cliente pede uma coisa,  e as vezes o próprio produtor do estúdio da produtora de imagem ou de estúdio de som acha que você só pode fazer daquela forma, não pede uma segunda opção [de entonação].  Nisso, automaticamente você é rejeitado. Não era aquilo que o cliente queria. Principalmente hoje que você não vai ao estúdio, não vai à produtora, você deixa de ter o contato com os criativos e com o próprio cliente. Então, você manda algumas opções e nem sempre é aquela opção que o cliente quer. Talvez se estivesse  junto dele no estúdio poderia dizer: “ E se fizer assim”, poderia ser aprovado. Mas em princípio não é só isso, as vezes estão procurando outro timbre e mesmo que você faça em mil variações ele ainda vai preferir outro timbre e isso, não denigre em nada a imagem ou a capacidade de um profissional. Estamos sujeitos a isso, a não ter o trabalho aceito, sem nenhum problema.

FB: Com toda facilidade e essa tecnologia que permite ter um ‘home estúdio’, acredita que a profissão tenha crescido em qualidade ou enxerga uma desvalorização no mercado por parte dos contratantes.
AV:
  Eu não vejo crescimento nenhum de qualidade. O que eu tenho visto no rádio e na televisão está péssimo.  Vejo criativos fazendo locução do seu próprio texto, gente comum que vende. Eu não sei onde buscaram isso…Talvez seja de uma forma pincelada em alguns mercado como a Inglaterra ou EUA, durante comercial pra jovem. E eu vejo que hoje, qualquer coisa, qualquer comercial está indo pro ar e é realmente lamentável, determinadas coisas que você ouve no ar.  Dessa forma eu respondo as suas duas perguntas. Os criativos não estão nem aí, eles querem algo que seja ‘sensacional’, mas eu não vejo nenhum profissionalismo nisso. Não vejo como isso pode vender.

FB:  Nem por parte dos contratantes e nem por parte dos locutores. Correto?
AV:  
Exatamente. Mas veja bem, não falo sobre locutores, falo sobre paraquedistas. Chegam no mercado e cravam na locução. Nunca gravaram uma locução na vida. Se você notar, me parece que tem um comercial no ar que eu estava conversando com um amigo que é advogado e falei: “Tem uma locução no ar de ‘Petrobrás’ que é a coisa mais ridícula que eu já ouvi na vida”.  E ele falou: “Rapaz, você sabe que eu acho que é o meu cunhado? Ele não é nada. Pediram pra ele fazer um negócio assim e eu não sei se ele trabalha na agência ou trabalha na ‘Petrobrás’….” É uma das coisas mais ridículas que eu já ouvi. É impossível que aquela voz já tenha trabalhado profissionalmente alguma vez na vida. Eu não tenho problema em afirmar que aquilo é péssimo. É péssimo. Eu não falo de colegas que estão começando,  nada disso. Tô falando de paraquedista. Deveria ter uma regulamentação para que somente profissionais com DRT pudessem fazer, porque não é possível. Não sei onde vamos parar.

FB: Você é autocrítico depois de tantos anos de profissão?
AV:
  Claro…Sempre! Tem coisas que faço e acho que poderia ter sido melhor. Tem coisas que acho que superei as expectativas. Tenho autocrítica e tenho meu ego que é burilado, massageado. Só que têm vezes que você é obrigado a seguir a direção. Se pedem para que faça algo, você tem que fazer. Aí não tem jeito e nem sempre te agrada.

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